I.
Nada ouvi sob os seios. Apenas o barulho triste de um motel apagado de fotografias. Sinos vagos tocavam em pares e ímpares de quartos vizinhos. Repetiam o vazio que há pouco eu consumia. Devorei de tudo, da sauna ao frigobar, com a mais infiel devoção. Embalei o corpo com a vingança da volúpia, desespero da noite permutando a solidão. Agora, pousavam na pele seios já desbotados, aguardando a hora de se deitarem. Assim, indizível, indigente, me despedi com um último lenço de papel, purificando o ventre do que em mim era resto. E eu, que me dizia poeta, fiquei sem qualquer rascunho para o rosto se enxugar.
II.
Sei de uma que morreu de overdose. Era madrugada insone, ela naquela libido desorientada, procurando as doses certas para se enxugar. Procurou o batom no guarda-roupa e se vestiu de nada. Encerrou os olhos e se deixou ler por palavras azuis, cinzas, vermelhas. O lápis embriagou-se em sua pele, tatuando sonhos, hormônios, até se tornar uma reação desconexa de choques genéricos, pudores adversos e dores ressecadas. E ela se tornou um sonho sem medida, um pensamento sem sentido que, de repente, se apaixonou.Ao morrer, estava rindo. Talvez dela mesma. Talvez de nós.
III.
Foi dormir pensando em um jeito nu de dizer à ela. Ele tinha aquelas palavras verdes, lindas e brilhantes, que nada serviam. São por demais perigosas, ela dizia. E ele, acostumado a banhar a boca de faz-de-conta, não mais sabia como beijá-la. Pensou em dedicar-lhe uma sílaba, daquelas que se repetem estupefatas quando lêem os pequenos gestos da respiração. Pensou em oferecer o pincel de seus momentos impressionistas. Mas ela, menina de sombras amarelas, respondia sempre com uma imprevisível e exclusiva metáfora:Mulher.
Rodrigo Lodi
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RODRIGO LODI é um menino, mineiro como só. Não é claro. Tem óinhos cor de alpiste e cabelos mouros. Escreve músicas à barlavento. Vez por outra, pega a rede de pesca e vai pro mato, balançar os pés nas tempestades. Nessas horas, ele chove. Chove no rio. Chove nos olhos. Chove tanto, que rema montanhas até chegar no mar. Então reza. E canta sua música pro vento ventar. Rodrigo também é João. E João é um menino. Mineiro, e só.




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