terça-feira, 7 de julho de 2009

One Kind Favor


Escreve Roberto Muggiati, em seu precioso livro “Blues: da lama à fama”, que, “no confronto com a realidade concreta do século 20 na América, o cantor de blues se exprime, em relação ao sexo e ao amor, com admirável lucidez e lirismo”. Esta passagem me fez pensar na canção “Love in Vain”, de Robert Johnson, que, com imagens desoladas (como aquela do trem partindo com suas duas luzes atrás), constrói um discurso sofisticadíssimo sobre as agruras do amor.Não foge dessa tradição o Rei do Blues – o Blues Boy King, ou, simplesmente, B.B. King. O seu mais recente disco, “One Kind Favor” (Geffen, 2008), tem quase todo seu repertório dedicado a canções que falam do amor, amargurado ou não. Uma das exceções é a sensacional “See that my grave is kept clean”, de autoria de Lemon Jefferson. Ironicamente mórbida nas cordas de “Lucille” (a lendária guitarra), ela concentra imagens de beleza rara, como a do cortejo em que “Há dois cavalos brancos em linha/ dois cavalos brancos estão em linha/ Prontos pra levarem meu corpo à cova”.Mas destaco aquelas canções que o amor é tema principal. Na desesperada “I get so weary”, de Jean Williams, B.B. King com seu peculiar “holler” manda ver um rhythm & blues na tensão de quem sabe que sua garota nunca mais vai aparecer. Mais forte e pungente é a interpretação para o blues “Get these Blues off me” de Lee Vida Walker. Nela, King faz soar sua guitarra acompanhada por metais ostensivos, repercutindo a resignação melancólica do eu lírico em perceber que deve deixar livre sua garota por não poder satisfazê-la como deveria: “Eu tentei te agradar/ Mas você nunca se satisfez comigo/ Bem, tentei te agradar/ Mas você nunca se satisfez comigo/ Então vou te deixar ir, gata/ Você deve ficar livre”.Há outras canções que assumem tons diferentes em relação ao amor, como a bela e a esperançosa “Waiting For Your Call”, de T-Bone Walker: “Não importa o tempo que eu espere lá fora/ Não importa quantas vezes eu tenha chorado/ Gata, eu ainda te amo/ E vou ficar aqui te esperando/ Esperando, gata, por uma ligação tua”. Bela também, neste sentido, é “My Love is Down” do mítico bluesman Lonnie Johnson.Acho, no final das contas, que o tom amoroso assumido por B.B. King transcende o amor em sua forma convencional. “One Kind Favor” se trata, na verdade, de uma homenagem apaixonada ao que o Blues tem de mais orgânico e essencial. Como disse Robert Johnson: “O Blues, ora, o blues é um velho coração doente e preocupado/ Assim como quando a mulher que você ama é difícil de agradar”.
Daniel Sampaio de Azevedo

Um comentário:

  1. Olá Patrícia! Tudo bem? Fico contente que tenha trazido pra tua casa meu texto. Melhor que qualquer comentário.

    Até, moça.

    Daniel Sampaio de Azevedo

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